A entrevista no QuantroTantos desta semana transcorre pelas sonoridades, palavras e oralidades. O convidado foi vencedor dos prêmios Machado de Assis e Jabuti, autor de obras como BaléRalé, Nossos ossos, Bagageiro, títulos impregnados de fala e rua, de vozes e semântica. Inquieto, criou o Balada Literária há mais de quinze anos, evento inspirado na Flip, dando voz a inúmeros nomes que ainda eram pouco conhecidos pelo público e que, neste ano, em setembro, estará em Juazeiro do Norte, Ceará. Concisa, a sua estética é, muitas vezes, de fricção poética e com muita influência teatral. Seus personagens, rueiros, da vida e das calçadas, podemos até mesmo esbarrar por aí, na catraca de um ônibus ao ir para casa, durante o horário do almoço no trabalho, encontros, desencontros, chão e rezas. Narrativas construídas também no silêncio, no vazio da incompletude, assim é seu último livro, Escalavra, romance publicado no final do ano passado pela Amarcord, que cruza um doméstico e implosivo desentendimento entre pai e filho, literatura feito teatro oral e rodeada por estrondos.

Pernambucano e conterrâneo de QuatroTantos, que amontoa e troca palavras para lembrar dos Quatro Cantos de Olinda, o entrevistado de hoje nasceu em Sertânia, sertão do estado, e respondeu para Alessandro Araujo quatro perguntas sobre a cena literária do país, sua obra e estilos, e quando ele se emociona enquanto leitor. Marcelino Freire está no quadro da revista Philos. 

20 anos depois de você lançar seu premiado livro Contos Negreiros, é possível afirmar que vozes antes silenciadas agora são lidas no Brasil?

“Vi Conceição Evaristo nas quebradas. O fato é que só agora outras pessoas abriram a escuta. Ou não tiveram mais como “não escutar”. Aliás, tem gente que quer ignorar, diz que é “onda passageira”. MARCELINO FREIRE

Essas vozes estavam sempre aí. O Cadernos Negros tem quase 50 anos. Vi sempre autorias negras circulando pelos saraus. O livro de Ana Maria Gonçalves, por exemplo, sempre foi celebrado nas periferias desde o seu lançamento. Vi Conceição Evaristo nas quebradas. O fato é que só agora outras pessoas abriram a escuta. Ou não tiveram mais como “não escutar”. Aliás, tem gente que quer ignorar, diz que é “onda passageira”. Pois essa “onda”, saibam, faz tempo que ondula, é um movimento muito antigo, é arrebentação pura, energia vital.

Em sua obra a palavra escorre pelo desassossego? 

Escorre pelo desassossego, pelo abandono, é um grito, é uma ladainha, uma reza, um vexame. Escorre pelos poros, pelos ralos. É correnteza sanguínea. Fluxo.

Oralidade e linguagem enraizadas no sertão. Mistura de gêneros, prosa e poesia, a dramaturgia. Seus livros também combatem o preconceito linguístico e confrontam normas?

“Inclusive meu gênero são todos os gêneros ao mesmo tempo. Todos os gêneros literários e sexuais. É um colorido que vem, sim, do sertão pernambucano.” MARCELINO FREIRE

Combatem qualquer preconceito. Inclusive meu gênero são todos os gêneros ao mesmo tempo. Todos os gêneros literários e sexuais. É um colorido que vem, sim, do sertão pernambucano. É daquele chão que vem a raiz do que eu escrevo. E é uma raiz teimosa, viu?

Quando o Marcelino leitor se emociona?

“Um livro me pega quando ele me derruba. Poesia então vive fazendo isso. Vive tirando as coisas do lugar. Adoro as rasteiras que a poesia dá.” MARCELINO FREIRE

Adoro ler o que eu não sei. Um livro me emociona pelo espanto, pelo arrebatamento. Um livro me pega quando ele me derruba. Poesia então vive fazendo isso. Vive tirando as coisas do lugar. Adoro as rasteiras que a poesia dá. Isso me afeta, me transforma. Toca fundo.


Marcelino Freire é escritor. Autor, entre outros, do romance Escalavra, recém-lançado pela Amarcord. Nasceu em Sertânia, PE. Vive em São Paulo desde 1991.

Alessandro Araujo é autor de Rabada (2024). Colaborador dos jornais Rascunho e Le Monde Diplomatique Brasil, da revista Philos e da editora Selvageria. É especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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